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Prof.Angelo.Machado.Foto Foca.Lisboa.2017Ângelo Machado foi um expoente para a ciência, o ensino, as artes e a divulgação científica.Faleceu nesta segunda-feira, 6 de abril de 2020, aos 85 anos e ainda com “alma de criança”, o querido e genial professor Angelo Barbosa Monteiro Machado, médico e professor titular da UFMG, neurocientista, entomologista, ambientalista, escritor, compositor, dramaturgo, dono de um carisma e de uma competência técnica e profissionail incomparáveis.

Graduado em Medicina pela UFMG (1958), obteve o título de doutor em 1963, na mesma Universidade, e alcançou o pós-doutorado, em 1967, na Universidade do Noroeste, em Chicago, nos Estados Unidos.

Com sua inteligência e temperamento “sui generis”, teve duas passagens como professor da UFMG, destacando-se em ambas como pesquisador e mestre e apresentando vasta contribuição nos campos da neurobiologia e da taxonomia de libélulas, reconhecido como conservacionista e pela autoria de mais de 30 obras infantis, dentre elas: O casamento da ararinha-azul: uma história de amor; Chapéuzinho Vermelho e o lobo-guará; O dilema do bicho-pau; Estraladabão-tão-tão, o trovão; O menino e a rã; O menino e o rio; A outra perna do Saci; Será mesmo que é bicho?

Angelo foi professor de anatomia e posteriormente de neuroanatomia no Departamento de Morfologia do ICB/UFMG. Nesse período, além do ensino, dedicou-se ao estudo da glândula pineal e do sistema nervoso autônomo, além de escrever o livro didático "Neuroanatomia funcional", referência ainda hoje em diversos cursos de graduação da área da saúde. Aposentou-se na Morfologia em 1985, segundo o jornalista Roberto Carvalho.

Como fez outro concurso público voltou a ser professor da UFMG, só que desta vez no departamento de Zoologia do Instituto de Ciências Biológicas. Com isso, como gostava de contar, seu hobby -- o estudo dos insetos --, virou trabalho. Além de ter descoberto várias novas espécies de libélulas, sua coleção -- doada à UFMG anos atrás -- desses insetos é hoje uma das mais maiores e importantes do país e do mundo. Aposentou-se compulsoriamente, aos 70 anos de idade, em 2004. No entanto, sua última aula no ICB foi somente no segundo semestre de 2018, quando falou para alunos de pós-graduação de Zoologia sobre suas expedições pelo interior do Brasil, em especial na região Amazônica.

O professor também foi membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Mineira de Letras, presidente do Conselho Curador da Fundação Biodiversitas, especializada na conservação de espécies ameaçadas de extinção, e secretário regional do conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Dessa atuação na SBPC, nos anos de 1980 foi um dos grandes precursores da revista Ciência Hoje das Crianças, tendo abrigado em seu laboratório -- de Entomologia -- a redação da sucursal mineira da revista.

Ganhador de vários prêmios, em 2017, por exemplo, durante as comemorações dos 90 anos da UFMG ele recebeu a Medalha Reitor Mendes Pimentel – maior honraria concedida pela Universidade. No mesmo ano, o então reitor Jayme Ramires afirmou, em solenidade realizada no ICB, que o professor Ângelo Machado encarna a ideia de superação: “da capacidade de fazer um moinho quando os ventos sopram forte”, possuidor de alma de criança do pesquisador e autor de obras infantis. Na ocasião, Machado lançava seu livro mais recente, Borboletas eróticas, em que conta histórias verdadeiras e fictícias sobre a pesquisa e o trabalho de campo. Já com dificuldades de se locomover, mas com a mente em grande atividade, foi também em 2017 que ele recebeu o título de Pesquisador Emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Devido ao momento vivido, com a pandemia de covid-19, infelizmente, não será possível render a ele as justas e devidas homenagens por seu falecimento. A família informou que não haverá velório e que o sepultamento, amanhã, será restrito. “Agradecemos por todas as manifestações de condolências recebidas”, afirma email assinado pela Família Machado.

HOMENAGENS

"Durante 20 anos trabalhei com o Angelo no escritório da Ciência Hoje (revista de divulgação científica da SBPC), que funcionava no laboratório dele, no Departamento de Zoologia da UFMG. Ele era o coordenador científico, e eu cuidava do jornalismo. Por sua alegria, por sua inteligência e disposição para o trabalho, Angelo era sempre uma fonte de inspiração para mim e para todos que tiveram o privilégio de conviver com ele. E será também inesgotável fonte de inspiração para todos aqueles que souberem de sua obra, seja no campo dos estudos acadêmicos, da divulgação científica ou da criação literária"

É com pesar que o Centro de Coleções Taxonômicas recebeu a notícia do falecimento do Prof. Ângelo Machado. Figura carismática, cativante, escreveu vários livros voltados ao público infantil, cumprindo um importante papel na popularização da ciência. Deixou também um acervo científico de libélulas, sua paixão, colecionado ao longo de cerca de 70 anos de pesquisas, doado à UFMG e que será alocado no Centro de Coleções Taxonômicas. Trata-se da maior coleção de libélulas da América do Sul, com cerca de 90 tipos nomenclaturais e aproximadamente 35 mil amostras. Um legado inestimável para a ciência. Sempre de bom humor, quando perguntado sobre a importância das libélulas, respondia: “entre as várias importâncias científicas das libélulas, a maior delas é fazer um velho feliz". Que voe em paz, como uma libélula!"

Prof. João Renato Stehman, Diretor do Centro de Coleções Taxonômicas

"Quando cheguei aqui no ICB, Angelo Machado era, junto com o Mário de Maria, o professor mais querido do departamento de Zoologia. Isto devido ao seu bom humor permanente e entusiasmo pelos insetos. Ele era uma inspiração para todos. A carreira dele, como zoólogo, foi construída basicamente fora do departamento, em casa. Foi lá que ele construiu sua coleção (desde a juventude, como um hobby) e onde ele estudou suas libélulas e escreveu seus trabalhos científicos. Ainda assim, quando o departamento de zoologia iniciou seu salto de qualidade, há vários anos, com a criação do Comitê de Coleções Taxonômicas (antecessor do atual Centro de Coleções Taxonòmicas, isto junto com os departamentos de Botânica, Biologia Geral, Microbiologia e Parasitologia), e, também, com a criação da Pós-graduação em Zoologia, a presença e apoio de Angelo Machado foram fundamentais. Ele, que já estava aposentado e afastado das atividades didáticas, topou voltar a dar aulas na nossa pós-graduação e a orientar. Tê-lo em nosso corpo docente foi muito importante naquele início. Além disto, ele foi muito importante, trazendo para dentro do ICB - e da UFMG - a preocupação com o ambiente. Juntamente com o corpo docente da 'Pós-graduação em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre' (co-administrado pelos departamentos de Zoologia, Biologia Geral e Botânica), ele entusiamou várias gerações de alunos a se dedicarem a trabalhar, como dirigentes de ONGs e empresas de consultoria ambiental ou como consultores ambientais autônomos. isto fez de Minas Gerais um estado pioneiro no Brasil, nesta área, e ajudou a projetar o nome da UFMG na área da biodiversidade que, de início, não era muito forte aqui. Sua importância como entomólogo, como estudioso do sistema nervoso, como ambientalista e como escritor e dramaturgo é muito grande. Em qualquer dessas áreas, ele deu contribuições grandiosas e terá seu nome lembrado por muitos anos pela frente".

Prof. Fernando Amaral da Silveira

"Prof. Angelo, é como sempre o chamei apesar da nossa amizade. Vou sentir falta das nossas conversas quando ainda estava no ICB. Eu entrava na salinha da Zoologia e aprendia mil coisas ouvindo seus casos, vendo livros que me mostrava e reportagens que discutia com uma lucidez impressionante. Verdadeiros momentos de aprendizagem. Sempre de alto astral, me presenteava com um caso novo, uma ideia para um livro, um assunto sério mas contado de uma forma deliciosa. Vou sentir falta de coletar libélulas no Parque do Rio Doce, e ver a alegria nos seus olhos, o espanto pelos espécimes trazidos e o agradecimento do fundo do coração, embora vc já tivesse todas que trazíamos! Eu me sentia feliz porque vc fazia parecer uma grande coisa, uma grande contribuição para sua coleção. No fundo eu sabia que não era nada novo para vc. Para mim o Prof. Angelo foi sempre exemplo de dedicação, seriedade e comprometimento com a ciência. Uma enorme perda em vários sentidos. Sou extremamente grata por ter sido sua aluna e mais tarde colega de ICB. Minha netinha tem dois livros com dedicatória e autografados por ele. Isso para mim sempre é um privilégio. O céu com certeza está em festa e cheio de libélulas!"

Profa. Paulina M. Maia-Barbosa

 

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- Programa Vereda Literária, com o professor Helton Gonçalves, gravado em 10/10/1999.

 

 

(Atualizada em 7/4/2020, às 17h00)

 

 

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