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Linhagens de bactérias utilizadas na manufatura dos produtos lácteos estão sendo utilizadas para caracterizar como alimento probiótico o queijo emmental, que está em testes no Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, no âmbito de convênio de cooperação com o Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (INRA) da França. A originalidade do trabalho está na utilização do queijo como matriz de proteção para linhagens probióticas e na investigação de uma bactéria pouco conhecida, a Propionibacterium freudenreichii.

Desenvolvido pelo doutorando Fillipe Luiz Carmo, o trabalho inclui o estudo de duas outras bactérias, Streptococcus thermophilus e Lactobacillus delbrueckii. Totalmente realizado na UFMG, o experimento comprovou que houve melhora do quadro inflamatório intestinal em modelo experimental de colite ulcerativa em camundongos que ingeriram o queijo produzido com as três linhagens bacterianas pesquisadas. 

“O queijo é feito em escala piloto, por uma empresa francesa que utiliza as linhagens bacterianas probióticas indicadas por nós”, explica o doutorando, que é orientado pelos pesquisadores Vasco Azevedo, do ICB, e Gwénaël Jan, do INRA-Rennes. Fillipe Luiz Carmo destaca a complexidade da Propionibacterium freudenreichii, “que está sendo enquadrada entre as chamadas next generation probiotics, ou probióticos do futuro ou de nova geração”.

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Queijo feito com linhagens bacterianas pesquisadas no ICB (Raíssa César/UFMG)

Outro estudo inédito desenvolvido no ICB em colaboração com o grupo francês e com o grupo do professor Siomar Soares, da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, busca desvendar a genômica da bactéria Faecalibacterium prausnitzii, alvo de vários estudos recentes. A tese de doutorado sobre o tema será defendida em maio, na UFMG, pelo pesquisador Leandro Benevides. “Muito difícil de ser cultivada, já que morre em ambiente com oxigênio, essa bactéria tem potencial para uso para tratamento, em cápsulas e em transplante de fezes”, comenta o orientador, Vasco Azevedo, acrescentando que a linhagem pode ser usada como marcador, pois sua presença indica que o organismo está saudável. 

A defesa ocorrerá no campus Pampulha, em programação conjunta com pesquisadores dos dois países, e inclui seminários com objetivos acadêmicos e reuniões de coordenação. A UFMG é uma das cinco universidades do mundo a sediar um Laboratório Associado Internacional (LIA) do instituto francês. Além de Vasco Azevedo, compõem a equipe da Universidade os professores Mauro Martins Teixeira e Ana Maria Caetano de Faria.

As linhas de pesquisa da UFMG no âmbito do LIA também incluem leite fermentado usando a proteína whey, trabalho que já gerou dissertação de mestrado. Segundo Vasco Azevedo, poucos trabalhos no mundo têm o queijo como matriz para alimentos funcionais. A intenção do grupo é desenvolver produtos específicos para tratamento de doenças inflamatórias do intestino, como colite ulcerativa e doença de Crohn. 

Colaboração
Baseada em três laboratórios da UFMG e dois do INRA, a parceria, formalizada em setembro de 2017, tem como principais focos de investigação doenças inflamatórias intestinais em humanos (IBD) e mastite de ruminantes. Pelo modelo de parcerias do instituto francês, o LIA formaliza uma colaboração internacional de longo prazo em função de um projeto científico comum, com duração de cinco anos, renovável uma vez. Unidades do laboratório estão instaladas na China, no Canadá, no México e no Japão.

A rede de pesquisa internacional constituída por meio de laboratórios associados tem os objetivos de promover intercâmbios e encontros entre cientistas, compartilhar conhecimentos e novas ferramentas de investigação e treinar jovens pesquisadores, criando condições para o aumento de colaborações multilaterais e para oferecer respostas eficientes a chamadas de projetos.

A parceria INRA-UFMG se materializa no projeto Bact-Inflam, que visa identificar determinantes bacterianos envolvidos em processos pró ou anti-inflamatórios em vários contextos (IBD e mastite) e caracterizar processos inflamatórios em modelos de glândula mamária e intestino. Ambas as doenças são preocupantes tanto no que se refere a humanos quanto a animais.

A estratégia adotada pelo Bact-Inflam inclui caracterização de processos de inflamação e das bactérias neles envolvidas, determinação da composição de microbiota associada a órgãos inflamados ou saudáveis, identificação de espécies marcadoras, caracterizando-as nos níveis celular e molecular, validação em modelos animais e desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas, com base no uso de bactérias imunomoduladoras ou compostos bacterianos.

Para alcançar essas metas, o projeto reúne expertises de cinco laboratórios, sendo três da UFMG – Genética Celular e Molecular, coordenado por Vasco Azevedo, Imunofarmacologia, liderado por Mauro Teixeira, e Imunobiologia, chefiado por Ana Maria Caetano. Os dois grupos franceses são do INRA Agrocampus Ouest Rennes, sob a coordenação do diretor de pesquisa Yves Le Loir, e INRA Jouy en Josas, comandado pelo diretor de pesquisa Jean-Marc Chatel.

A intenção é reunir expertises complementares, já demonstradas em duas décadas de investigação colaborativa entre pesquisadores da UFMG e do instituto francês, nas áreas de bacteriologia molecular, metagenômica, probióticos, mastite, doenças inflamatórias, genômica, bioinformática, imunologia e modelos animais.

(Notícia publicada originalmente no Boletim UFMG Número 2.012, de autoria de Ana Rita Araújo - https://ufmg.br/comunicacao/publicacoes/boletim/edicao/das-sufragistas-as-ativistas-2-0/probiotico-do-futuro-1)

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