Iniciativa coordenada por professora do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução alia ciência, saberes tradicionais, protagonismo feminino e conservação ambiental no Quilombo da Pontinha, em Paraopeba (MG).
Uma iniciativa de extensão, pesquisa e inovação social coordenada por uma professora do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG vem transformando a realidade socioeconômica do Quilombo da Pontinha, no município de Paraopeba (MG), ao mesmo tempo em que contribui para a conservação do Cerrado e a valorização de saberes tradicionais. Trata-se da Agroindústria Quilombola Pontinha de Sabor, projeto desenvolvido sob a responsabilidade da professora Maria Auxiliadora Drumond, do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução (GEE) do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais.
A agroindústria surgiu como resposta a um desafio central enfrentado pela comunidade quilombola: a dependência econômica da extração do minhocuçu, atividade sazonal que entra em período de defeso justamente durante a frutificação de espécies nativas do Cerrado, como o pequi. A partir de um longo processo participativo, iniciado em 2012, o projeto estruturou uma alternativa de geração de renda baseada no beneficiamento sustentável de frutos nativos, articulando ciência acadêmica, conhecimento tradicional e organização comunitária.
Ao longo de mais de uma década, a iniciativa se consolidou em sete fases integradas, que envolveram diagnóstico socioecológico, estudos de viabilidade ecológica e de mercado, formação técnica, desenvolvimento agroindustrial, implantação de tecnologias socioecológicas, fortalecimento da governança comunitária e avaliação contínua da sustentabilidade. O resultado é uma agroindústria instalada no terreno da escola municipal da comunidade, equipada com infraestrutura modular em contêineres e sistemas de energia solar, aquecimento solar, captação de água da chuva e tratamento ecológico de efluentes.
Além da dimensão ambiental, o projeto se destaca pelo impacto social. A Pontinha de Sabor é formada majoritariamente por mulheres quilombolas, que assumem papel central na gestão, produção e tomada de decisões, fortalecendo o protagonismo feminino negro e a autonomia econômica local. Atualmente, a agroindústria produz uma diversidade de alimentos derivados do pequi, além de produtos de outros frutos do Cerrado, atendendo a mercados locais e regionais e garantindo segurança alimentar às famílias envolvidas.
A atuação do projeto também se estende à educação ambiental e à produção de conhecimento. A agroindústria funciona como espaço educativo para estudantes da educação básica, recebe visitas técnicas e gera materiais didáticos, vídeos, artigos científicos e trabalhos acadêmicos, reforçando o compromisso do ICB com a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
Com a formalização da Associação Produtiva Pontinha de Sabor e a consolidação de parcerias institucionais, a iniciativa alcançou sustentabilidade financeira e já inspira a implantação de experiências semelhantes em outras comunidades quilombolas, evidenciando seu potencial como Tecnologia Social replicável.Para o ICB e para a UFMG, o projeto reafirma o papel estratégico da universidade pública através da extensão na promoção do desenvolvimento sustentável, na valorização dos povos tradicionais e na construção de soluções inovadoras para desafios socioambientais complexos, a partir do diálogo entre ciência e sociedade.
Redação: Timóteo Dias