Por David Soeiro
Docente do Departamento de Parasitologia/ICB e delegado da COP30
A crescente frequência e intensidade de eventos extremos, como ondas de calor, inundações e secas, estão diretamente ligadas ao aumento de adoecimentos e óbitos, sobrecarregando sistemas de saúde em todo o mundo e colocando vidas em risco. Embora a saúde esteja começando a ganhar espaço nas políticas climáticas – e vice-versa – o progresso ainda é fragmentado e subfinanciado, exigindo uma ação global coordenada e urgente.
Um relatório alarmante do Lancet Countdown de Saúde e Mudanças Climáticas de 2025 revela a dimensão dessa crise, apontando que milhões de mortes por ano são causadas por calor extremo e poluição. Desse total, 546 mil óbitos anuais estão diretamente relacionados ao calor. A queima de combustíveis fósseis, por sua vez, é responsável por milhões de mortes, evidenciando a necessidade premente de uma transição energética. Os dados globais do mesmo relatório são contundentes no aumento da exposição ao calor extremo. Dos 20 indicadores monitorados, 13 estabeleceram novos recordes preocupantes, sublinhando a aceleração dos impactos climáticos na saúde humana. Essa escalada de eventos extremos não apenas ameaça a vida, mas também compromete a produtividade e o bem-estar em escala planetária.
O Brasil, país anfitrião da COP30 em Belém, enfrenta desafios particularmente graves. Aumento de mortes provocadas pelo calor e na perda de horas potenciais de trabalho, além de aumento nas horas de risco de estresse térmico. Os impactos ambientais no Brasil também são alarmantes. Houve um aumento nos incêndios florestais, e áreas de terra com seca extrema cresceram de forma alarmante. A temperatura da superfície do mar tem se elevado. Esses dados reforçam a urgência de ações adaptativas e mitigadoras para proteger a saúde e o meio ambiente.
Nesse contexto, a COP30 em Belém representa uma oportunidade ímpar para o Brasil acelerar a trajetória do compromisso à implementação. O Ministério da Saúde propõe a adoção do Plano de Saúde de Belém, fundamentado nos princípios de equidade em saúde, justiça climática e governança participativa. Este plano, parte do Eixo 5 da Agenda de Ação da COP30 ("Promovendo Desenvolvimento Humano e Social") e focado no Objetivo 16 (promover serviços de saúde resilientes), oferece diretrizes para acelerar soluções em vigilância intregrada, políticas baseadas em evidências, capacitação, inovação e produção local, sob a abordagem "Uma Só Saúde" (One Health), que reconhece a interconexão entre a saúde humana, animal e ambiental.
Somado a este processo, foi apresentado o documento debatido e consolidadodurante o 60º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, realizado em João Pessoa em 02 de novembro de 2025, resultante de uma oficina temática que reuniu especialistas em mudanças climáticas, medicina tropical e abordagem Uma Só Saúde. A atividade, organizada conjuntamente pela Associação Brasileira de Saúde Única (ABRASUNI), pela Coordenação Geral de Zoonoses e Doenças de Transmissão Vetorial (Grupo Técnico de Uma Só Saúde), pela Coordenação de Mudanças Climáticas e Equidade em Saúde e pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde, sintetizou propostas estratégicas em três eixos fundamentais: (1) Emergências climáticas e seus impactos nos ecossistemas, com destaque em redes colaborativas, vigilância integrada, comunicação especializada e análise de riscos para patógenos emergentes; (2) Justiça climática e povos tradicionais, garantindo representação política, valorização de saberes ancestrais e proteção territorial; e (3) Adaptação e serviços essenciais, mediante integração do AdaptaSUS e Plano Nacional de Uma Só Saúde, reforço de planos municipais de adaptação, resiliência dos serviços de saúde e financiamento estratégico. O documento reafirma que a adaptação às mudanças climáticas sob a perspectiva de Uma Só Saúde é de extrema importância para proteção da saúde humana, animal, vegetal e ambiental, considerando os desafios na segurança alimentar e nutricional, bem como da proteção da biodiversidade, consolidando um compromisso multidisciplinar e participativo para enfrentar os desafios impostos pela crise climática à saúde.
A transição energética emerge como uma solução vital, com estimativas de que a energia renovável pode salvar milhares de vidas anualmente. A COP30 e o Plano de Saúde de Belém trazem um compromisso com a salvaguarda da saúde das gerações atuais e futuras. Através do fortalecimento da adaptação e da mitigação, busca-se garantir que a humanidade não apenas sobreviva, mas também evolua – tornando-se a melhor versão de si mesma, fundada na dignidade, na justiça e na solidariedade.