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Luís Figueiredo e Carlos Olórtegui: exame pode ser adaptado ao diagnóstico de outros tipos de micose. Foto: Luana Macieira/UFMG

A paracoccidioimicose, também conhecida como blastomicose sul-americana, é uma doença causada pelo fungo Paracoccidioides brasiliensis. Sistêmica, ela ataca diferentes partes do organismo, como o pulmão, o sistema nervoso central e as glândulas adrenais. É de difícil diagnóstico, pois pode ser confundida com outras doenças como a tuberculose e a pneumonia, e muitos pacientes têm dificuldades para iniciar o tratamento, o que favorece o desenvolvimento do fungo, que causa vários danos à saúde do paciente e pode levá-lo à morte.

Para realizar testes mais rápidos e evitar resultados “falso-positivos”, equipe do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG desenvolveu novo anticorpo para o diagnóstico da paracoccidioimicose, assunto abordado em reportagem da edição 2002 do Boletim UFMG, que circula nesta semana. O método consiste na criação de anticorpos monoclonais, que são aqueles produzidos em laboratório com base em linfócitos gerados por camundongos e cujos sistemas imunológicos foram estimulados pelos antígenos da doença.

“Produzimos novos anticorpos monoclonais para uma proteína específica do fungo. Montamos um modelo de ensaio para capturar o antígeno e o pusemos em contato com o soro do paciente. Juntamos o soro do paciente a esse antígeno e assim removemos as reações cruzadas responsáveis pelos resultados que sugeriam outras doenças”, resume o pesquisador Luís Felipe Minozzo Figueiredo, residente pós-doutoral do Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB e um dos responsáveis pelo estudo.

Figueiredo explica que a doença pode ser diagnosticada de outras duas maneiras: pelo  método padrão, em que os médicos analisam amostras de escarro e fluidos corporais do paciente com os sintomas, buscando visualizar o fungo em microscópio ou por cultura do fungo em laboratório, e pelo método, – também empregado em hospitais – que consiste no diagnóstico por meio de exame sorológico. Nesse caso, os médicos extraem amostras sanguíneas do paciente e procuram identificar o anticorpo para o fungo.

“Os dois processos são muito demorados. No exame feito com o escarro e os fluidos, além do tempo necessário para que a amostra seja cultivada em laboratório, nem sempre essa amostra vai apresentar fungos para crescimento ou visualização. Já no exame sanguíneo, o paciente pode ter a doença, mas seu corpo pode não produzir os anticorpos para combatê-la (pacientes imunocomprometidos). Assim, o exame dá negativo”, explica Luís Felipe.

O coordenador do estudo, professor Carlos Delfin Chávez Olórtegui, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB, acrescenta que o novo exame é feito em apenas quatro horas e pode ser adaptado a outros tipos de micose. “A metodologia já havia sido testada antes, mas os pesquisadores não tinham conseguido eliminar totalmente os ‘falso-positivos’. Nossa pesquisa é inédita, porque chegamos a uma alta especificidade do anticorpo monoclonal responsável por todo o sucesso do diagnóstico. Como ­nosso antígeno era mais puro, o anticorpo que desenvolvemos é mais eficiente.”

A pesquisa, iniciada em 2013 com a tese de doutorado de Luís Felipe Minozzo Figueiredo, está sendo realizada em parceria com o Centro de Produção e Pesquisa de Imunobiológicas (CPPI) do Paraná e com a Universidade Federal do Paraná (UFPR). Os estudos ainda não foram finalizados. “Agora buscamos aprimorar os reagentes para acelerar o processo. Já detectamos o anticorpo no paciente e perseguimos um modo de identificar também o antígeno liberado do fungo dentro do organismo. Normalmente demora para que o anticorpo antifungo apareça no exame de uma pessoa infectada. Queremos detectar o fungo para confirmar o processo de diagnóstico”, antecipa o professor Carlos Chávez Olórtegui.

Subnotificação

A paracoccidioimicose é uma doença que ocorre apenas na América Latina, e o Brasil é responsável por 80% dos casos. Aqui, a doença é a oitava causa de mortalidade por doença infecciosa predominantemente crônica entre as enfermidades infecciosas e parasitárias.

Segundo Luís Felipe, como a doença não é de notificação compulsória no país, os dados relativos ao número de pacientes em tratamento não são representativos. A doença acomete pessoas cujas profissões envolvem manejo do solo, como agricultura, transporte de produtos vegetais, terraplenagem e jardinagem. Esses trabalhadores respiram os esporos do fungo e contraem a infecção, geralmente nas duas primeiras décadas de vida. No entanto, a evolução e a manifestação do micro-organismo costumam aparecer mais tarde, entre os 30 e 50 anos de idade.

A paracoccidioimicose integra o rol das doenças negligenciadas e alcança uma população de baixa renda, principalmente os trabalhadores do campo. “Um novo método de diagnóstico que aumente a sensibilidade e a especificidade do teste poderá atender a uma parcela da população que sofre com a micose. Quando não tratados, os pacientes podem ter fibrose pulmonar e perder capacidade respiratória”, afirma o pesquisador.

Além disso, o fungo causador da paracoccidioimicose consegue se multiplicar rapidamente em pacientes com o sistema imunológico debilitado, como os portadores de HIV. “As pessoas acham que a micose é uma doença simples de pele, mas há tipos perigosos que afetam órgãos internos. Daí a necessidade de um diagnóstico cada vez mais rápido e eficiente”, defende Figueiredo.

(Texto de Luana Macieira / Boletim UFMG 2002 - https://ufmg.br/comunicacao/publicacoes/boletim/edicao/antartica-aqui/sem-margem-para-o-falso-positivo-1)

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