Departamento de Microbiologia
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Leveduras de importância médica

O termo levedura inclui fungos predominantemente unicelulares que reproduzem assexuadamente por brotamento ou, mais raramente, fissão binária e sexuadamente pela produção de ascósporos e basidiósporos. Podem se apresentar sob a forma filamentosa dependendo das condições ambientais, produzindo micélio verdadeiro ou pseudo-micélio. A identificação tradicional das leveduras é baseada na observação de características morfológicas e utilização de provas bioquímicas como a fermentação de carboidratos (zimograma) e a utilização de fontes de carbono e nitrogênio (auxanograma).

As leveduras podem causar micoses superficiais ou profundas no homem e em diversos animais, constituindo um grupo de microrganismos oportunistas por excelência. Apesar de nas últimas décadas outras leveduras terem tido sua importância aumentada, como as do gênero Trichosporum, Geotrichum e Rhodotorula, no entanto, sem dúvida, Candida albicans e Cryptococcus neoformans são responsáveis pela maior parte das infecções que ocorrem no homem.

  • Candidoses

Infecções causadas por leveduras pertencentes ao gênero Candida, principalmente à espécie Candida albicans, e que acometem, principalmente, pele, unhas, mucosas, trato intestinal e urinário. Outras espécies potencialmente causadoras de candidoses são: Candida albicans, Candida tropicalis, Candida pseudotropicalis, Candida guillermond, Candida krusei, Candida parapsilosi e Candida glabrata.

A transmissão se dá de maneira endógena. C. albicans existe como normal no trato gastrointestinal, na área vulvovaginal, na pele e fezes. Assim, para que C. albicans seja considerada patogênica é necessário que a mesma seja isolada de modo constante, em grande quantidade das lesões e visualizada ao exame direto na forma filamentosa. Também pode haver transmissão por contato inter-humano e fômites (roupas e toalhas).

Em casos de comprometimento imunológico por quaisquer fatores (ex: AIDS, tuberculose, neoplasias, antibioticoterapia ou terapias com esteróides ou agentes citotóxicos), as leveduras podem proliferar e causar auto-infecções. Nos extremos das idades (pacientes idosos debilitados e recém-nascidos prematuros) e nos desnutridos, a ocorrência de candidose é alta. Durante a gravidez, (principalmente três últimos meses), ocorre aumento de glicogênio nas células da mucosa vaginal, propiciando a incidência de candidose vaginal. Tratamentos prolongados com antibióticos, principalmente os chamados de largo espectro de ação, corticóides, drogas antiblásticas e os anticoncepcionais favorecem a instalação de candidose.

Além disso, é importante ressaltar que um dos principais fatores locais para a instalação de candidose é umidade. Assim, lavadeiras, cozinheiras, faxineiras são acometidas pela colonização do fungo, principalmente nos sulcos ou dobras cutâneas. Outro fato é que a maceração da pele, seja por fatores mecânicos ou químicos, favorece o crescimento do fungo. As infecções causadas por espécies do gênero Candida apresentam um quadro clínico diversificado, a saber:

  • Candidíases superficiais:
    • Candidíase oral: ocorre formação de placas brancas na mucosa oral e cantos dos lábios (sapinho).
    • Vulvovaginite: lesões pruriginosas e eritematosas com leucorréia e sensação de queimadura, provocando corrimento espesso tipo nata de leite e geralmente é acompanhado de coceira ou irritação intensa. Eventualmente o parceiro sexual aparece com pequenas manchas vermelhas no pênis, no entanto a candidíase não é considerada uma doença sexualmente transmissível.
    • Candidíase intertriginosa: lesões eritematosas, exsudativas, úmidas e descamativas, localizadas nas dobras da pele (ex: axilas, interglútea, perianal, região submamária, espaços interdigitais).
    • Onicomicose: acometem principalmente a região periungueal da unha, a qual se apresenta edemaciada, avermelhada e dolorosa.
    • Candidíase muco-cutânea: acometimento da pele, mucosas e unha.
  • Candidíase disseminada: ocorre acometimento visceral. De modo geral, o paciente apresenta debilitação em seus mecanismos de defesa ou tem uma doença de base. As formas clínicas mais freqüentes são a candidíase esofagiana, onicomicoses e vulvovaginites. Apresentam difícil tratamento.

 

  • Criptococose

C. neoformans é essencialmente o único agente etiológico da criptococose. As variedades causadoras da criptococose são: Criptococcus neoformans com as variedades gattii (sorotipos B e C), neoformans (sorotipo A) e grubii (sorotipo D).

Tal fungo provoca a criptococose, doença subaguda ou crônica no homem, causando comprometimento pulmonar, sistêmico e, principalmente, do sistema nervoso central. Também já foi diagnosticada em cães e gatos com localização pulmonar, nervosa e mucosa, em vacas com envolvimento do tecido mamário e linfonodos adjacentes, e em eqüinos com localização nasal e respiratória. Provocar morte em 3 a 4 dias, em camundongos inoculados através de via cerebral, formando extensas massas tumorais.

As variedades neoformans e grubii são encontradas em solos com fezes de pombos e outras aves nos centros urbanos com maior freqüência; o fungo vive nas fezes e pode permanecer viável por dois anos se houver umidade suficiente. Com relação à variedade gattii, a mesma é isolada de árvores do tipo eucalipto de regiões tropicais e subtropicais. Possui distribuição universal por ser infecção oportunista, acometendo com maior freqüência pacientes imunodeprimidos com doença primária.  

A transmissão se faz por inalação de leveduras capsuladas ou esporos da sua fase sexuada ou teleomórfica. A infecção primária no homem é quase sempre pulmonar, subclínica e transitória; em pacientes sintomáticos manifesta-se como tosse e febre, com radiografias demonstrando nódulos isolados ou múltiplos nos campos pulmonares médio e inferior, passíveis de calcificação. Pode permanecer viável por anos até haver alguma alteração na resistência do hospedeiro, quando então se manifesta a doença no pulmão, no SNC ou disseminadamente. Há tropismo pelo SNC, levando à meningite criptocócica.

Apresenta um quadro clínico variado, podendo a micose manifestar-se sob a forma de infecção ou doença, dependendo do estado imunológico do paciente e de fatores como virulência da cepa, quantidade de propágulos aspirados e tamanho do inoculo.     

Outra leveduroses de importância médica são causadas por:

  • Geotrichum candidum

Esse fungo pode causar infecções orais com placas brancas semelhantes às de candidíase. As manifestações bronquiais são as mais comuns, com presença de tosse crônica e escarro mucóide e sanguinolento que lembra tuberculose. A forma intestinal da doença provoca colite e fezes sanguinolentas. Já foram documentadas infecções vaginais.

  • Toluropsis glabrata

Patógeno oportunista que geralmente provoca doenças em pacientes debilitados. Os pulmões e os rins são os órgãos mais afetados, embora possa ocorrer disseminação para o restante do corpo, através do sangue, causando fungemia e choque séptico.

  • Pneumocystis carinii

Pneumocystis se adere às células epiteliais e penetram ao citoplasma, aumentando a permeabilidade capilar do alvéolo, levando à danos na membrana basal do alvéolo, formando exsudato alveolar eosinofílico. A apresentação clinica da pneumocistose pode ser dividida em três grupos de pacientes; crianças, pacientes com AIDS e pacientes imunossuprimidos não infectados pelo HIV. Nas crianças o quadro inicia-se com tosse, taquipnéia, desconforto respiratório, febre baixa; já em pacientes com AIDS, os sintomas são similares, mas o curso da doença é mais abrupto. Em pacientes imunossuprimidos HIV-negativos o curso clínico é mais agudo, as vezes, fulminante.


Referências

  • WAHINGTON WINN, Jr.; ALLEN, Stephen; JANDA, William; KONEMAN, Elmer; PROCOP, Gary; SCHRECKENBERGER, Paul & WOODS, Gail. Koneman Diagnóstico Microbiológico. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. 1565 p.
  • SIDRIM, José Júlio Costa; ROCHA, Marcos Fábio Gadelha. Micologia médica à luz de autores contemporâneos. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. 388 p.
  • WINN, Washington C.; KONEMAN, Elmer W. Koneman: Diagnostico Microbiológico texto e atlas colorido. 6th ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, c2008. 1535, 30 p.
  • TRABULSI, Luiz Rachid; ALTERTHUM, Flavio. Microbiologia. 4. ed. rev. e ampl. São Paulo: Atheneu, 2005. 697 p.
  • CHAMPE, Pamela C; HARVEY, Richard A; FISHER, Bruce D. Microbiologia ilustrada. 2. ed. São Paulo: Artmed, 2008. 436 p.

 

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