NEUROGÊNESE NO CÉREBRO ADULTO:
MORTE DE UM DOGMA
Gross, CG. Neurogenesis in the adult
brain: death of a dogma. Nature 10/00 (1) 67-73 [PDF]
Por mais
de 100 anos a hipótese central da neurociência tem sido que “novos neurônios não são adicionados ao cérebro de um
mamífero adulto”. Este trabalho examina as
origens deste dogma, sua manutenção em face a evidencias contraditórias e seu
colapso final. A aceitação da neurogênese adulta pode ser parte de uma mudança
no paradigma contemporâneo da visão da plasticidade e estabilidade no cérebro
de adultos.
O DOGMA
DE MEIO SÉCULO
No
final do século 19, a idéia de que o cérebro de um mamífero adulto permanece constante
estruturalmente, foi abraçada universalmente pelas principais figuras da
época, incluindo Koelliker, His e Cajal. Quais são as origens deste ponto de
vista? Koelliker, His e outros descreveram em detalhes o desenvolvimento do
sistema nervoso central em humanos e outros mamíferos. Eles descobriram que a estrutura
do cérebro permanece fixa logo após o nascimento. Devido a aparente permanência constante da arquitetura elaborada do
cérebro, a idéia de que neurônios eram adicionados constantemente foi
inconcebível. Similarmente, Ramón, Cajal e outros descreveram as diferentes
fases do desenvolvimento dos neurônios, que termina com as características
estruturais multipolar do adulto. Como nenhuma figura mitótica nem os
estágios do desenvolvimento foram vistos no cérebro de adultos, a possibilidade
de adição contínua de neurônios era raramente levada a sério.
Na primeira metade do século vinte, foram
relatados ocasionalmente neurogênese pós-natal em mamíferos. Schaper
argumentou a existência de células indiferenciadas que estavam fortemente
distribuídas no cérebro de teleostei a humanos, e que estas poderiam se
diferenciar tanto em neurônios com em glia. Levi relatou mitose em neurônios
pequenos no cérebro danificado de porco. Ao mesmo tempo, Hamilton detectou
mitose em ratos de quatro dias de vida, e Allen relatou figuras mitóticas no
cérebro de rato de até pelo menos 120 dias após o nascimento. Em muitos desses
estudos, figuras mitóticas foram descobertas forrando as paredes do ventrículo
lateral e na zona subventricular de ratos adultos. Consequentemente, a possibilidade de que novas células surgindo na zona
subventricular e migrando para o cérebro para formar neurônios maduros foi
sustentada.
Entretanto,
nestes estudos, não ficou claro se as células sob mitose se tornavam glia ou
neurônio. Infelizmente, nenhum dos
métodos usados pelos investigadores foi capaz de distinguir uma célula glia se
multiplicando de um pequeno neurônio mitótico.
Estes
relatos isolados constatando a possibilidade da neurogênese em cérebro de
adulto, tendiam a ser ignorados pelos livros e muito pouco citados.
Possivelmente isso ocorreu devido ao grande peso da autoridade opositora à
idéia e a inadequação de métodos disponíveis para detectar a divisão celular e
realizar a distinção entre glia e neurônios pequenos.
TIMIDINA
TRITIADA
Um avanço importante no
estudo da neurogênese surgiu no final dos anos 50 com a introdução da
autoradiografia com [3H]-timidina. [3H]-timidina é incorporada ao DNA
durante a divisão celular. Desta forma a população de células que haviam se
dividido poderia ser marcada, e seu momento e local de nascimento determinados
(fig. 1). Os primeiros estudos foram realizados em roedores nos períodos pré e
perinatal, refletindo a persistência da crença na ausência da neurogênese em mamíferos
adultos.

Figura 1
Nascimento e morte celular no adulto.
Fotomicrografias de células granulares do giro dentado coradas com violeta
cresil. a. célula de rato marcada com [3H]-timidina.
b. célula de rato marcada com BrdU. c. célula mitótica de macaco em anáfase marcada
com BrdU. d. célula de
macaco picnótica (morrendo).
Em
1961, a autoradiografia de [3H]-timidina foi usada pela primeira vez
nos estudos de proliferação no cérebro de adulto. Apesar do relato de
células provenientes da zona subventricular migrarem para o cérebro e se
tornarem neurônios e glia em camundongos de três dias de vida, as evidências em
adultos não ficaram claras.
No
início dos anos 60, trabalhos foram publicados relatando a existência de novos
neurônios em várias estruturas de ratos jovens e adultos, incluindo neocortex,
bulbo olfatório, etc. Estes neurônios
foram chamados de “microneurônios” (granulares com axônio pequeno) e foram
considerados de grande importância no aprendizado e na memória. O desprezo
desta descoberta é um caso clássico de descoberta feita “antes do tempo”. Houve
várias razões para que este trabalho, realizado por Joseph Altman, não fosse
aceito. Primeiro, as técnicas disponíveis não eram adequadas para
diferenciar células neuronais das gliais. Segundo, os resultados mostraram uma migração
desigual do ventrículo para, por exemplo, o bulbo olfatório e o córtex
cerebral. Por último, uma importante razão para a não aceitação deste trabalho
foi o fato de que Altman era um pós-doutorando auto-didata que trabalhava
por conta própria no Departamento de Psicologia (MIT) e que seu o resultado
de seu trabalho iria alterar um fato central e universalmente aceito da
neurociência. No final dos anos 70, um
livro sobre desenvolvimento da neurosciência afirmou “... não há nenhuma
evidencia convincente da produção de neurônios no cérebro de mamíferos
adultos”.
MICROSCOPIA
ELETRÔNICA
Quinze
anos depois da descoberta de Altman, vários estudos de microscopia eletrônica
realizados por Michael Kaplan e seus colaboradores suportaram argumentos de
neurogênese em adulto. Primeiro eles mostraram que células marcadas com [3H]-timidina
no giro dentado e no bulbo olfatório do cérebro de rato apresentaram
características de neurônios, como dendritos e sinapses. Finalmente Kaplan mostrou mitoses na zona subventricular de macaco
adulto combinando técnicas de marcação com [3H]-timidina e
microscopia eletrônica. Apesar de sua evidência para neurogênese em adulto,
o trabalho de Kaplan teve pouca repercussão. Ao contrário do caso de
Altman, mesmo a publicação em jornais prestigiosos e rigorosos por uma figura
desconhecida não foi suficiente para fazer uma marca no dogma.
FALTA
DE EVIDÊNCIAS
Outra
razão para o pequeno impacto do trabalho de Kaplan foi um trabalho apresentado
em um encontro em 1984 e publicado no ano seguinte. Pasko Rakic, o autor deste
trabalho, conduzia estudos sobre o desenvolvimento do cérebro em primatas. Ele
desenvolveu um estudo em adultos de macacos Rhesus baseado na [3H]-timidina
onde foram examinadas “todas grandes estruturas e subdivisões do cérebro,
incluindo a visão, motora, neocortex, hipocampo e bulbo olfatório”. Rackic descobriu células marcadas no
cérebro de qualquer adulto e concluiu que “todos neurônios do macaco Rhesus
foram gerados no período pré-natal e pós-natal”.
Este
trabalho teve uma grande influência na neurociência. Pesquisas subsequentes
usando [3H]-timidina, micrografia eletrônica e marcadores
imunocitoquímicos para astroglia também não identificaram neurogênese no giro
dentado do primata (relato contradito mais tarde após a introdução de novas
técnicas). Para Rackic, a suposta
carência de neurogênese em primatas adultos faz sentido, isto é, “uma população estável de neurônios pode
ser biologicamente necessária em um organismo onde a sobrevivência depende do
aprendizado assimilado durante um longo período de vida”.
As
seções seguintes deste trabalho discutem três desenvolvimentos que
eventualmente levam a aceitação geral de que neurônios gerados em adultos são
adicionados em apenas uma região do cérebro de roedores adultos chamada hipocampo,
e que isto é provavelmente um fenômeno interessante e importante. O primeiro
avanço foi uma série de experimentos que mostraram neurogênese em pássaros
adultos. O segundo avanço foi a introdução de novos métodos para marcar células
novas e distinguir neurônios e glia. Finalmente,
demonstrações que a neurogênese poderia ser regulada por importantes variáveis
fisiológicas como stress, complexidade ambiental e aprendizado aumentaram a
possibilidade de que neurogênese em adulto fosse mais do que vestígios
ontogenéticos ou filogenéticos e que deveria ser importante em animais
superiores. Desta forma duas perguntas se destacam: Ocorre neurogênese em
primatas adultos? Qual seria a função destes neurônios gerados no adulto?
NEUROGÊNESE
EM AVES
Começando
no final dos anos 60, Nottebohm e seus companheiros começaram uma análise
sistemática das bases neuronais do aprendizado musical dos pássaros.
Eles descobriam vários mecanismos cruciais para o canto dos pássaros e
mostraram como o volume de dois núcleos eram uma função de variáveis como sexo,
maturidade sexual, complexidade do canto, espécies, nível de testosterona e
estação. As mudanças no volume deste
dois núcleos musicais relacionados à mudanças hormonais e de estação foram tão visíveis em algumas espécies que Nottebohm começou a investigar
se estas mudanças estavam
relacionadas a flutuações no número de neurônios no cérebro de aves adultas.
Em
uma série de experimentos, Nottebohm e seus companheiros mostraram que, de
fato, milhões de novos neurônios são
adicionados todo dia ao cérebro das aves. Primeiro foi provada a adição
de neurônios com [3H]-timidina; segundo, as evidências
ultraestruturais que novas células estão recebendo sinapses; e por
último que estes neurônios respondem ao
canto como potencial de ação. Em estudos seguintes, foi relatado que os
axônios destes novos neurônios se estendem por longas distâncias, o nascimento
e a morte de neurônios ocorre em paralelo e que ambas as espécies musicais e
não-musicais possuem neurogênese em regiões fora do cérebro, como o hipocampo
e que neste último ocorre uma modulação pela complexidade do meio e
experiência no aprendizado.
Apesar da semelhança entre a neurogênese de
aves e de primatas, estes estudos tendem a ser vistos como irrelevantes para
mamíferos. Ao invés disso, as evidências de neurogênese em aves foram
vistas como uma especialização exótica relacionada com a necessidade de manter
um cérebro leve e para ciclos estacionais de canto.
Novas técnicas
Nos
anos 90 ocorreram vários avanços que finalmente estabeleceram a realidade da
neurogênese em giro dentado no rato adulto. Primeiro foi demonstrado que as
novas células formadas estidiam seus em axônios ao longo de uma via de fibras. Outro importante avanço foi a introdução do
análogo da timidina sintética BrdU (5-bromo-3’-deoxiuridina). Como a
timidina, a BrdU é incorporada pelas células durante a fase S da mitose,
marcando estas células proliferadoras e sua progênie. Esta marcação pode ser
visualizada com técnicas imunocitoquímicas (fig. 2) e não requer
autoradiografia. Esta técnica permite uma estimativa do número total de células
e também demonstra que as células novas expressam marcadores tipo- específicos.

Figura 2 – Marcadores
célula-específicos e neurogênese.
Imagens de microscopia
confocal de escaneamento laser mostrando imagens de células marcadas com BrdU. a.
duas células (setas brancas) marcadas com BrdU e o marcador de oligodendrócito
CNP de córtex frontal de macaque adulto. A barra de escala de 5mm também se aplica para b. b. Célula marcada com BrdU (vermelho
com seta branca) co-marcada com marcador neuronal de proteína associada a
microtúbulo (MAP-2) (corante citoplasmático verde) do giro dentado de um
macaque adulto. c. Células duplamente marcadas com BrdU e marcador
neuronal, classe III beta-tubulina (TuJ1) do giro dentado de ratos adultos.
Barra de escala de 5mm. d. Célula de
córtex parietal de macaque adulto co-marcada com BrdU e retrograde tracer Fast
Blue (marcador azul de corpo celular). A seta amarela aponta células marcadas
com BrdU e não co-marcadas com Fast blue. A barra de escala é de 10mm. e. Imagens de escaneamento laser confocal (série Z), Seções
de 1mm através de uma célula
marcada com BrdU (setas brancas) no córtex prefrontal de macaque adulto
mostrando a co-localização do marcador neuronal, neuronal nuclei – NeuN (verde
nuclear e cor citoplasmática). A seta amarela indica uma célula marcada apenas
com NeuN. A barra de escala é de 15mm.
Outro avanço importante foi o uso de
marcadores celulares específicos para uma identificação imunohistoquímica das
novas células geradas. Entre os marcadores de neurônios maduros estão NSE
(neuron specific enolase), MPA-2 (microtubule-associated protein), TuJ1 (Classe
III beta-tubulina) e NeuN (neuronal nuclei). Apesar de alguns destes marcadores
mostrarem presença em células não-neuronais sob certas condições e outros não
estarem presentes em todos os tipos de células neuronais, a expressão de muitos destes antigenos numa população de células
adultas é considerada uma boa evidência .
Neurônios imaturos podem ser marcados com as proteínas Hu, PSA-NCAM
(polysialylated-neural cell adhesion molecule), TuJ1 e CRMP4 (collapsin
response mediated protein 4). Alguns destes marcadores estão presentes em
células não neuronais. Existem também marcadores para oligodentrócitos, como
CNP e O4, e para astrócitos, como GFAP e S100b.
É interessante notar as diferenças
aparentes na boa vontade de aceitar a plasticidade em diferentes estruturas
cerebrais. Há poucos anos atrás Altman relatou neurogênese pós-natal no
córtex cerebral e no giro dentado de roedores, e também no bulbo olfatório. A
falta de evidências foi a mesma para todas as áreas. Mas os três argumentos
tiveram destinos diferentes. Neurogênese
no bulbo olfatório e no giro dentado foi evidenciada cedo, mas, ainda em 1991,
apenas os resultados do bulbo olfatório foram incluídos no texto autorizado de
Jacobson. Isto pode refletir a grande boa vontade em aceitar a plasticidade
em organismos filogeneticamente mais velhos e em áreas menos interligadas. A
situação do córtex cerebral de ratos ainda não está clara. Kaplan relatou esta
neurogênese através de autoradiografia e evidências estruturais, mas
recentemente Macklis e seus colegas não encontraram neurogênese no córtex, a
menos que a apoptose fosse induzida.
Regulação
da Neurogênese
As
novas técnicas chegaram no início dos anos 90 e as afirmações feitas
anteriormente por Altman de que novos neurônios eram incorporados ao giro
dentado de adultos foram confirmadas por várias vezes. Mas seria esse
fenômeno um vestígio filogenético ou erro no desenvolvimento? Uma série de
estudos logo mostrou que a neurogênese no giro dentado poderia ser modulado
pela experiência e poderia ser importante nas funções cognitivas do organismo.
Gould
e colaboradores mostraram que o estresse diminuía o número de neurônios
gerados no giro dentado de adultos. O aumento dos hormônios esteróides
adrenais e de glucocorticóides são, provavelmente, os responsáveis por esse
efeito de estresse, diminuído a taxa de neurogênese. Esses achados foram
posteriormente confirmados pelos estudos de Cameron e McKay que mostraram a
relação da diminuição da neurogênese nos giros dentados em idosos com o aumento
dos níveis de glucocorticóides. A administração crônica de morfina e heroína
também diminui a neurogênese, mas o mecanismo não parece envolver
corticoesteróides.
Foram
descobertas também várias condições que aumentam o número de células adultas
geradas no giro. Viu-se que o oestrogênio estimula a produção de novos
neurônios imaturos no giro dentado e a ovarioectomia reduz. Percebeu-se também
a complexidade ambiental aumenta o número de neurônios hipocampais da
mesma forma mostrada em pássaros, ratos e camundongos. Curiosamente ao colocar
camundongos para correr em rodas há um aumento do número de células marcadas
com BrdU no giro dentado. Mas se isso é devido à estimulação ambiental,
redução do estresse ou algum outro efeito periférico do exercício, como aumento
no fluxo sanguíneo ainda está incerto.
Apesar
de que ambientes ricos provavelmente oferecem mais oportunidades para
aprender do que experimentos padrão de laboratório, há muitas outras diferenças
entre as duas condições, como a quantidade e qualidade da vida social,
visual, auditória, tátil e de estimulações motoras. Para isolar os efeitos
da aprendizagem, Gould e colaboradores estudaram a influência de experiências
de aprendizagem na produção de novos neurônios no giro dentado de ratos. O
número de novos neurônios aumentou em animais treinados em condições de
cegueira ou de aprendizagem espacial, duas tarefas dependentes da região hipocampal.
Ao contrário, nenhuma mudança no número de novos neurônios foi encontrada em
animais treinados em tarefas não dependentes do hipocampo. Um aumento da
sobrevivência dos novos neurônios pode ocorrer quando a experiência de
aprendizado ocorre algum tempo após a produção celular. Ainda, há alguma
discussão se o aumento pode estar confinado apenas a partes específicas do giro
dentado.
Em
resumo, há várias condições que podem aumentar ou diminuir a neurogênese no
giro dentado de adultos, indicando que a esse fenômeno pode ser importante para
a função hipocampal.
O Dogma
se Despedaça
Na
década de 90 viu-se um aumento das evidências relacionadas à plasticidade do
sistema nervoso central. Diversas demonstrações de plasticidade no cérebro
de mamíferos adultos têm encorajado a procura de neurogênese em primatas
adultos e tornado essa possibilidade muito mais plausível do que no
passado.
No
fim da década a neurogênese adulta foi mostrada no giro dentado de primatas
utilizando marcação de BrdU combinada com marcadores neuronais,
mostrando que novos neurônios tinham sido formados em marmoset, macaque e em
humanos. O estudo de Erikson em humanos com câncer foi um ponto chave para
aceitação da neurogênese humana como um fenômeno real, pois mostrou que mesmo
no cérebro mais complexo existente, novos neurônios continuam a ser
adicionados ao longo da vida. Não está claro se a taxa ou as características da
neurogênese variam entre as ordens de primatas ou roedores, pois dados
comparativos ainda não estão disponíveis. Evidências posteriores para a
neurogênese adulta no hipocampo vêem de estudos nos quais células
progenitoras capazes de proliferação foram isoladas do hipocampo de ratos e
humanos adultos.
Recentemente
Gould e colegas publicaram que um número relativamente pequeno de novos
neurônios foi adicionado ao neocortex de macaque adulto. Como extensão a esse
trabalho os autores mostraram que a maioria desses neurônios adultos gerados
possuía uma existência transiente. Através de alguns métodos foi possível
visualizar o nascimento e morte do neurônio.
Portanto,
mais de 100 anos após a formação da doutrina dos neurônios, finalmente
está claro que o fato de que “os neurônios não podem ser adicionados ao cérebro
de mamíferos adultos” é falso. Mesmo em adultos, mesmo em primatas e
aparentemente mesmo no córtex cerebral. A questão agora é: quais são as
funções dessas novas células?
Um
papel na aprendizagem e memória?
Todos
os dias milhares de novos neurônios são adicionados no cérebro de mamíferos. Apesar
de que novos neurônios são uma minúscula proporção da população total, sua
contínua adição através do tempo de vida implica numa considerável mudança
estrutural. A magnitude e ubiqüidade da neurogênese adulta entre os vertebrados
sugere que ela é funcionalmente significante e não meramente um vestígio
do desenvolvimento.
Os
dados disponíveis sobre essas novas células apresentam diferentes tempos de
vida, variando de dias até a vida inteira do animal. Pode haver uma população
de neurônios adultos que são gerados com longevidade curta e variável, e
outra(s) população(ões) aparentemente de tamanho(s) menor(es), que é(são)
permanente(s). O turnover da maioria dos novos neurônios parece mostrar
que é improvável que suas funções sejam as de substituir as células mortas
durante o desenvolvimento.
Essa
seção considera a possibilidade que as células geradas no adulto tenham funções
na aprendizagem e memória. Na próxima, uma seção mais especulativa, algumas
possíveis funções dos novos neurônios na aprendizagem são discutidas. Ambas as
seções enfocam o hipocampo devido ao fato de que a maior densidade de
novos neurônios é gerada ali e ao maior conhecimento que temos sobre estes.
Existem
cinco considerações que sugerem que a neurogênese nos mamíferos adultos pode
ser importante para o aprendizado e memória.
1.
Novos neurônios são adicionados a estruturas cruciais para a
aprendizagem e memória. Isso inclui, na maioria dos vertebrados, o hipocampo (envolvido na
aprendizagem espacial e consolidação da memória de longa duração), o córtex
inferior temporal (envolvido na aprendizagem visual) e o cortex superior
parietal (envolvido na aprendizagem espacial);
2.
Várias condições que diminuem a proliferação de células granulares no
giro dentado,
como o estresse, aumento dos níveis de corticoesteróides circulantes,
envelhecimento e administração de opiáceos, também prejudicam a aprendizagem
dependente de hipocampo. Portanto esses prejuízos na aprendizagem podem
estar relacionados com uma diminuição dos neurônios granulares gerados em
adultos;
3.
Várias condições que aumentam a proliferação de células do hipocampo
aumentam a aprendizagem das tarefas dependentes de hipocampo. Isso inclui aumento nos
níveis de oestrogênio, aumento da complexidade ambiental e “corrida na roda”.
As descobertas de Praag que a corrida na roda aumenta o LTP do giro dentado, a
neurogênese da região e a aprendizagem espacial também são consistentes com a
idéia de uma associação entre a neurogênese adulta e a aprendizagem.
Finalmente, aprendizado específico em tarefas hipocampais aumenta a vida das
novas células no giro dentado. Esses resultados suportam a possibilidade
que a neurogênese adulta no hipocampo pode ser importante para as funções de
aprendizagem dessa estrutura. Entretanto deve-se notar que tanto os moduladores
negativos da neurogênese (como o estresse) e seus moduladores positivos (como a
complexidade ambiental) têm vários efeitos não relacionados à neurogênese,
como mudança na estrutura dendrítica na sinapse, glia e na vascularidade, todas
contribuindo para mudanças na performance de aprendizagem;
4.
Novos neurônios (ou pelo menos aqueles anteriormente inutilizados) são
preditos e requeridos para algumas teorias computacionais de aprendizagem. Muitos modelos
contemporâneos de programação de aprendizagem encontraram que não é viável a
utilização de redes já fixas. Então eles postularam a adição de unidades na
rede ou a existência de neurônios não utilizados;
5.
Os neurônios gerados em adultos podem ser similares aos gerados nas
fases embrionárias e pos-natais no fato de possuírem algumas propriedades que
podem fazê-los particularmente adequados para funções de aprendizado e memória.
Por
exemplo, durante o desenvolvimento, os novos neurônios estendem seus axônios e
rapidamente fazem novas sinapses. Similarmente, neurônios gerados no giro
dentado de adultos estendem seus axônios por 4 a 10 dias após sua geração,
indicando que podem fazer sinapses longas antes de se tornarem completamente
maduros. Talvez eles sejam particularmente plásticos e façam conexões mais
prontamente durante estágios precoces. Finalmente células granulares que
foram presumivelmente geradas na fase adulta têm um menor limiar de indução de
LTP, produzindo maiores facilitações de curta duração, sendo mais plásticos e
menos passíveis de inibição mediada por GABA do que células mais velhas,
características que são coerentes com seu papel na memória de curta duração.
Funções:
algumas especulações
Nessa
seção mais especulativa são discutidas possíveis funções dos neurônios
gerados em adultos na aprendizagem e memória. Esses neurônios têm
propriedades temporais que podem estar relacionadas à formação de memórias. A
adição diária de neurônios no cérebro pode levar em conta o fato de que as
memórias de longa duração são rotuladas de acordo com o tempo, um fenômeno
sugerido por aspectos de perda de memória em pacientes humanos. Por exemplo, em
condições como o mal de Alzheimer há uma perda retrogressiva das memórias.
Ainda, na recuperação de amnésia traumática, as memórias mais antigas retornam
primeiro. Esses gradientes temporais de amnésia implicam que as memórias
mais jovens são diferentes das mais velhas, na medida que as mais velhas são
mais resistentes a interferências traumáticas e de doenças. A adição
continua de novos neurônios sugere um possível mecanismo para esse fenômeno.
Pode haver grupos de células que guardam um tipo particular de memória, com
novos neurônios adultos sendo gerados continuamente e integrados aos circuitos
de memória. Portanto, quanto mais velhos os circuitos de uma memória particular
mais neurônios ela deve ter e mais resistente deve ser a traumas devido à maior
redundância, maior dispersão espacial ou ambos. Essa hipótese exige que haja
uma população de neurônios gerados no adulto que tenham uma alta taxa de
sobrevivência.
Entretanto,
muitos neurônios gerados nos adultos parecem ter uma existência de tempo
limitado. Isso pode estar relacionado ao processo transiente envolvido na
memória. Um processo possível é a transformação de memória de curta duração
a memória de longa duração. Talvez o padrão de atividade em circuitos
envolvendo os neurônios recém gerados represente o tempo de estocagem de um
determinado evento. Se o padrão de atividade persistir, pode produzir uma
mudança nos neurônios mais velhos e permanentes que representam a memória
de longa-duração, talvez atuando em sua expressão gênica resultando numa
mudança na eficácia sináptica. Após a ocorrência dessa consolidação, os
neurônios recém gerados no adulto podem morrer, permitindo que novos
neurônios possam chegar, funcionando da mesma forma para a consolidação de
novas memórias.
Um
papel especifico para a geração de neurônios em adultos pode ser possível através
de funções de armazenamento limitado por tempo no hipocampo. Essa
estrutura parece ser essencial para armazenamento de memórias declarativas,
apesar de que apenas por pouco tempo. A função do hipocampo na manutenção dessa
informação diminui em memórias mais antigas, que se pensa serem estabelecidas
nas áreas de associação neocortical. Essas funções de memórias temporárias
no hipocampo podem envolver neurônios transientes gerados no hipocampo
do adulto. Quando essas memórias tornam-se permanentemente guardadas nos
circuitos neocorticais os neurônios adultos agora não-necessarios podem morrer.
Em ratos, muitas células geradas no hipocampo de adultos morrem após três
semanas de vida. Em macacos, muitos dos neurônios gerados em adultos morrem em
nove semanas. Esses ciclos de vida correspondem aproximadamente à
estimativa de duração do armazenamento hipocampal nas duas espécies, uma
correlação que confere plausibilidade à idéia de que os neurônios
transientes hipocampais podem ser importantes para o armazenamento transiente
de funções no hipocampo.
Conclusões
A
idéia que novos neurônios não são adicionados aos cérebros de mamíferos adultos
vem desde as origens da moderna neurociência nos fins do século XIX. A
persistência desse dogma em face a contradições empíricas e sua recente
demolição mostram a força de uma tradição e a dificuldade de cientistas
desconhecidos e jovens têm em alterar esses pensamentos pré-concebidos.
Isso sugere também a necessidade de novas idéias surgirem juntamente com uma
matriz de suporte de técnicas inovadoras que lhes tragam maior
aceitação. A concordância geral sobre a neurogênese adulta, pelo menos no giro
dentado do hipocampo é sugestiva e sugere uma mudança no paradigma corrente.
Nos podemos estar no meio de uma revolução no nosso conceito da plasticidade
do cérebro de um mamífero adulto.
Deve
ser enfatizado que o número atual de neurônios gerados no cérebro de adultos
é apenas uma pequena proporção da população total de neurônios. Mas a
existência de neurônios gerados na fase adulta no hipocampo (e provavelmente em
todos os lugares do cérebro) e a possibilidade que essas células possam
funcionar na capacidade de aprendizado e memória oferecem novos mecanismos para
o armazenamento de informações no cérebro. Pode ser que a aprendizagem e a
memória envolvam o desenvolvimento de circuitos inteiramente novos com
elementos novos e anteriormente não utilizados, tanto quando a modulação de
velhos circuitos e conexões.
Finalmente,
a neurogênese adulta pode também ser relevante na corrida para o
desenvolvimento de estratégias terapêuticas para o tratamento dos danos
cerebrais.
Perguntas
1. Como a [3H]-timidina pode
ajudar nos experimentos relacionados com a neurogênese em mamíferos adultos?
2. Quais eram os motivos para a não
aceitação da neurogênese em adulto relatada por Altman nos anos 60?
3. Cite os novos avanços tecnológicos que sustentaram
as evidências de Altman na atualidade. Fale um pouco do modo de ação de cada
técnica.
4. Com a utilização de novas técnicas, qual foi a
conclusão final aceita pelo mundo científico com relação a neurogênese em
mamíferos adultos?
5. Os estudos de neurogênese em aves revelaram uma
ligação deste fenômeno com um hábito importante destes organismos. Qual é este
habito e sua ligação com a neurogênese?
6. Há várias condições que podem aumentar ou diminuir
a neurogênese no hipocampo de adultos. Cite alguns deles e explique, se
possível, como eles atuam.
7. Através de experimentos com marcadores que são
incorporados ao DNA durante a replicação, como o BrdU, foi possível
perceber a produção de novos neurônios nos sistemas nervosos de vários
organismos. Além disso, os cientistas conseguiram também mostrar que essas
células eram transientes, ou seja, elas tinham um tempo de vida limitado.
Como eles conseguiram medir isso e qual a hipótese feita sobre a atuação
dessas células no sistema de aprendizagem/memória?
8. Considerando qual fato os cientistas concluíram que
o surgimento das células novas não era um evento isolado ou um erro no
desenvolvimento e chegaram à conclusão de que esses neurônios deveriam ter uma
função específica?
9. Quais são as cinco observações que fazem o
autor concluir que a neurogênese nos mamíferos adultos pode ser importante
para o aprendizado e memória?
10. Quais as três explicações especulativas que
o autor dá para as possíveis atuações dos neurônios formados no cérebro de
adultos na memória e na aprendizagem?
1. Se a ciência, assim como a religião,
pode conter seus dogmas, como o de que “os neurônios não se
regeneram” ou “Deus existe”, qual a diferença entre as duas formas
de se entender o mundo? Como a ciência e religião tratam a quebra de seus
dogmas?
2. No início dos estudos em biologia molecular,
o genoma dos organismos era visto como uma unidade altamente rígida,
complexa e imutável. Apenas depois de muitos anos de estudo foi possível
provar que o genoma é relativamente mutável e instável, podendo realizar
quebras, rearranjos, trocas, transposições e mutações. A partir de agora estamos
descobrindo que também as estruturas cerebrais não parecem ser tão coordenadas
como pensamos, o que você pode esperar sobre as novas descobertas da
neurobiologia? Será que descobriremos padrões cada vez menos rígidos,
demonstrando uma maior plasticidade dos arranjos neuronais?
3. Uma vez li um livro de um médico indiano (que ainda
pode ser encontrado nas livrarias) chamado longevidade do cérebro. O
autor indicava, entre outras coisas, que os neurônios não se regeneravam em
adultos (acho que o livro era de 95 então vá lá...). Entretanto ele dizia que
os neurônios que sobreviviam aumentavam o número de conexões, podendo, à
medida que o tempo passava, entrar em contato com um número maior de outros
neurônios e que isso supriria a perda dos neurônios por morte. Existe
alguma evidência que aponta isso ou o cara viajou? (Ele defendia também a
aplicação de certas drogas e alimentos, inclusive de gingko biloba para
aumentar a atividade cerebral, existe evidência para isso também?)
4. Como a complexidade ambiental, no caso mostrado, o
fato do camundongo correr na roda poderia levar a um aumento na neurogênese?